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sábado, 4 de janeiro de 2014

Sergipano ex-motorista do TJ/SP torna-se Juiz

O jornal O Estado de S. Paulo publicou, no início deste mês, a história do sergipano Reinaldo Moura de Souza. Como tantos outros nascidos em Boquim, ele ajudou muito ao pai na plantação de laranja, mas aos 22 anos foi levado para São Paulo por um tio. Nem pensava em fixar residência, mas acabou passando em um concurso para motorista do Tribunal de Justiça de lá.

Encantado com o mundo jurídico, prestou vestibular para Direito, passou e conseguiu uma bolsa parcial, com reembolso após a formatura. Mas ele não parou por aí. Com o canudo de bacharel na mão, prestou concurso para Juiz e foi aprovado com êxito.

Atualmente, ainda pagando a faculdade, está fazendo a escola preparatória para assumir o cargo na cidade de Ribeirão Preto. A Diretoria de Comunicação do Tribunal de Justiça de Sergipe fez questão de mostrar esse exemplo de vida e foi muito bem acolhida pelo magistrado, que hoje é motivo de orgulho para todos os sergipanos.

Dircom - TJ/SE Gostaríamos que o senhor contasse um pouco como foi sua infância.
Reinaldo Souza Nasci na cidade de Boquim, a conhecida terra da laranja. Pequena, mas agradável e acolhedora. Tive uma infância normal, cheia de amigos e muitas brincadeiras. Nesta época, residia num povoado próximo, hoje bairro Miguel dos Anjos. Estudava na cidade, colégios públicos, onde muitas vezes ia a pé, pois o transporte escolar era precário. Com aproximadamente 10 anos, mudamos para a cidade. Comecei a estudar no Colégio Santa Terezinha, escola particular, cujo pagamento era realizado com muito esforço pelo meu pai, até concluir o ensino médio. Sempre gostei de estudar, aptidão que também se apresentou na minha irmã Simone, hoje professora e pós-graduada. Tinha cinco irmãos, três homens e três mulheres. Eu era o mais moço dos homens. Infelizmente, no ano de 2002, um dos meus irmãos, Ronivaldo Moura de Souza, faleceu num acidente de moto, deixando dois filhos pequenos. Meu pai é um pequeno agricultor, plantador de laranjas, com quem sempre trabalhei desde pequeno. Homem simples, muito trabalhador, honesto, com pouca escolaridade, pessoa da qual tenho muito orgulho. Minha mãe é natural de Nossa Senhora da Glória (SE), lutadora, compreensiva, paciente, dedicada, religiosa, em suma, uma brasileira de verdade.

Dircom - Todo adolescente sonha com uma profissão. O senhor pensava em seguir qual caminho?
RS: Quando eu tinha 14 anos, o Banco do Brasil realizou um concurso, dentro da própria cidade, onde participaram os melhores alunos das escolas do município. Eu e minha colega de sala conseguimos a aprovação. Tecnicamente a função era denominada menor auxiliar, mas sempre ficou conhecida como office boy . Na verdade era um contrato com aquela instituição, cuja duração se estendia até os 17 anos e 10 meses. Nesta fase, pensei em ser bancário, mas findo o contrato, continuei trabalhando com meu pai na lavoura de laranja.

Dircom - E como o senhor foi parar em São Paulo e por qual motivo?
RS: Vim a São Paulo com meu tio Antônio. Muitos não acreditam, mas eu não queria e não tinha nenhuma vontade de visitar essa cidade. Ocorre que esse meu tio costumava nos visitar ocasionalmente. Em uma dessas visitas, ele não teve condições de dirigir o carro e conseguiu um motorista para levá-lo a Boquim, o qual não retornaria com ele a São Paulo. Chegada a data de retorno, meu tio precisou de alguém para dirigir e pediu ao meu pai para que eu fosse. Não queria, mas meu pai insistiu e o meu tio Antônio garantiu que o retorno seria rápido. Chegando a São Paulo, no dia seguinte, conheci o senhor Jonas, compadre do meu tio e motorista do Tribunal de Justiça de São Paulo. Tomei conhecimento de que estava em andamento concurso para o cargo de motorista. Insistiram muito, refleti, conversei com meus pais e resolvi prestar. Fui aprovado e ali comecei a trabalhar. Permaneci nesse cargo por seis anos e meio.

Dircom - Quando o senhor começou a pensar em estudar Direito?
RS: Depois de alguns meses no cargo de motorista, senti a necessidade de morar no interior do Estado. Uma das alternativas era prestar outro concurso público. Comecei a estudar para Oficial de Justiça, cujo programa contemplava cinco matérias jurídicas. A partir do estudo intenso de tais disciplinas, emergiu o interesse pelo Direito.

Dircom - Foi muito difícil a época da faculdade? Onde o senhor estudou e o que aprendeu de mais importante?
RS: Foi uma fase das mais difíceis. Casado fazia alguns meses, pagando aluguel, sem dinheiro para arcar com todas as despesas, resolvi prestar o vestibular. Ingressei na Universidade São Francisco. Consegui, nessa instituição, uma bolsa que permitia o pagamento parcial da mensalidade, com reembolso posterior à formação. O benefício era de 50%, cujo remanescente continuo pagando. Tinha aulas das 7h20 às 11h30. À época, pegava cinco conduções diárias, pois precisava trabalhar no Tribunal das 13 às 21 horas. Penso que na faculdade o mais importante que aprendi é que é preferível uma sociedade de bons homens a uma sociedade de boas leis . Na minha graduação consegui perceber, também, que o capitalismo voraz não pode fazer desaparecer no operador do Direito o sentido de justiça e de pacificação sociais.

Dircom - Quando o senhor se formou, em 2003, já pensava em prestar concurso para Juiz? Foi muito difícil passar?
RS: Na verdade, o meu desejo pela magistratura iniciou-se quando ingressei na própria faculdade. Qualquer concurso público, hoje, é muito difícil. O concurso da Magistratura, não só de São Paulo, é muito concorrido. Aqui, em especial, vêm candidatos de todas as partes do país, cujo nível de preparação é muito bom. Tive que renunciar a muitas coisas e adotar uma rotina de estudo diária que possibilitasse a aprovação. Com muito esforço, perseverança e fé em Deus consegui. Tive o apoio e compreensão da minha esposa Jucilene, a quem devo boa parte desta conquista.

Dircom - Como seus colegas do Tribunal de Justiça receberam a notícia da sua aprovação para Juiz? Principalmente os mais simples, que são motoristas, como o senhor já foi?
RS: Ficaram muito felizes. Para muitos eu represento um exemplo que deve ser seguido, vez que as adversidades jamais devem ser obstáculos à realização de um sonho.

Dircom - Creio que o apoio da sua família também foi fundamental, não?
RS: Minha família constitui o meu alicerce, sem a qual minha história seria diferente. Todos estão muito felizes e orgulhosos. Meus pais são vivos e saudáveis, graças a Deus. Tenho dois filhos lindos e maravilhosos, verdadeiros presentes divinos. Minha esposa foi e tem sido o meu braço direito, sofreu junto e, agora, está muito feliz. Eu a conheço desde a 5ª série. Filha de pessoas das quais gosto muito. Considero a família dela como minha segunda família. A ela, com quem tanto sofri, meus agradecimentos.

Dircom - Como o senhor pretende desempenhar seu papel de Juiz e onde o senhor vai trabalhar?
RS: Penso que a função de julgar é um dom quase divino, que deve ser exercida com responsabilidade, dedicação, equilíbrio e, acima de tudo, bom senso. É preciso ressaltar que somos seres falíveis, mas como a verdadeira justiça só provém de Deus, nós, Juízes humanos, exercendo esta função delegada por ele e conferida constitucionalmente pela sociedade, devemos exercitá-la da melhor maneira possível. Irei trabalhar, de início, na cidade de Ribeirão Preto.

Dircom - Que avaliação o senhor faz do Poder Judiciário hoje? O que o senhor acha que pode ser feito para melhorar a prestação jurisdicional?
RS: O Poder Judiciário é um dos baluartes do nosso Estado Democrático de Direito. Nele repousam muitos anseios dos jurisdicionados. É o Poder Judiciário verdadeiro guardião dos direitos e garantias catalogados na Constituição Federal. O Judiciário, infelizmente, na visão da sociedade, não tem exercido a contento a sua função. Esse descontentamento se revela não pelo conteúdo das decisões, mas pelo fato de que elas são proferidas muito tempo depois. Aqui devemos reconhecer que Justiça tardia não é Justiça. Essa lentidão é fruto de uma legislação arcaica, de uma máquina judiciária que não dispõe dos recursos materiais e humanos necessários ao bom desempenho da atividade jurisdicional e, também, de uma cultura de judicialização de conflitos. É preciso que haja uma verdadeira e efetiva reformulação da legislação processual, de maneira que o processo possa trilhar o seu caminho sem uma enormidade de incidentes e recursos. Faz-se necessária, ainda, a aposta em outras formas de solução de conflitos, tais como a conciliação e a arbitragem, as quais funcionam em muitos outros países. De qualquer forma, confio no Poder Judiciário, o qual vem se modernizando, vem numa busca incessante da melhoria de qualidade da prestação jurisdicional, confiança esta que deve ser ratificada pelos cidadãos, como forma de pacificação e resguardo da própria sociedade. Estamos avançando e vamos melhorar muito.

Dircom - Para encerrarmos, que avaliação o senhor faz da sua vida? O senhor acha que sua história serve de exemplo para tantas pessoas que vivem reclamando das dificuldades do dia-a-dia?
RS: Considero que a minha vida tem sido recheada de adversidades, mas a transposição de cada uma delas constitui-se no incentivo para o enfrentamento daquilo que virá mais à frente. Sou uma pessoa realizada. Agradeço sempre a Deus, pois sem a permissão dele nada disso teria acontecido. Sou muito grato a minha família e a todos que acreditaram em mim. Caso minha história sirva de exemplo, ainda que para uma única pessoa, já serei muito feliz. Como lição, aprendi que a derrota faz parte da conquista e que os obstáculos se apresentam para ser superados. Ademais, nada é impossível ao que crê. Existe uma frase do Imperador Romano Marcus Aurelius, a qual considero muito relevante e merecedora de constante reflexão: a verdadeira grandeza de um homem está na consciência de um propósito honesto na vida, alicerçado numa justa opinião sobre si mesmo e sobre tudo o mais, em freqüentes auto-análises e numa constante obediência aos preceitos que ele sabe serem justos .

Fonte: TJ Sergipe

4 comentários:

  1. No inicio de que mês ?
    A data dessa matéria é de 2007. Seria sempre de bom grado pesquisar as fontes antes de publicar.

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    Respostas
    1. Flavio, td bem?
      Eu sempre verifico as datas e tenho muito zelo com tudo que posto aqui no blog, fique tranquilo.
      No caso em tela não alterei o texto, pois a informação é irrelevante junto ao tema e objetivo da postagem, qual seja, motivação.

      bons estudos!

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    2. Olá Deborah, obrigada por sempre postar textos de motivações, acompanho sempre o blog,

      Bons estudos

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  2. Olá Deborah, amei a reportagem, sem dúvida é uma injeção de motivação!

    ResponderExcluir

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