Desafio

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Medo, angústia, depressão... Como vencer estes inimigos?

O quadro O Grito, do pintor norueguês Edvard Munch, é uma das mais importantes obras da modernidade e tornou-se um dos ícones do expressionismo. Livremente reproduzido mundo afora, retrata com exatidão sentimentos como desespero e pavor. Sensações absolutamente humanas, naturais. Mas que, quando experimentadas fora de controle, podem paralisar qualquer um. Foi pensando neste risco, e como escapar dele, que Fernando Elias José escreveu Concursos: Faça sem Medo, lançado pela editora Artes e Ofícios em 2011.

Psicólogo, o autor soma mais de dez anos na preparação para o vestibular e os concursos públicos. E busca trabalhar as aflições dos candidatos a partir de um referencial teórico da psicologia cognitivo comportamental. "Ampliei esta abordagem com o intuito de poder ajudá-los a trabalhar melhor suas emoções no período da preparação, para que esta fase não seja tão estressante", pontua. "Na medida em que as pessoas conseguirem se conhecer mais emocionalmente, terão mais tranqüilidade para controlar a ansiedade e obter maior saber técnico. Afinal, todo ser humano é feito de conhecimentos técnicos e emocionais", garante Fernando.

Quais espécies de medo - palavra citada no título de seu livro - mais afetam os candidatos de concursos públicos?
O pavor no dia da prova e de não ser bem-sucedido nela pode ser considerado um dos maiores medos que os concurseiros enfrentam, após meses ou anos de estudo e dedicação. Por esta razão, sempre aconselho encarar o concurso como algo completamente atingível porque sim, ele tem suas dificuldades e complicações, mas é preciso desmistificá-las. Mas como lidar com isso? Muitas vezes o estudante se coloca inconscientemente no papel de vítima, onde a fonte de suas próprias emoções negativas está em algo ou em alguém alheio à sua vontade. A vitimização se manifesta por pensamentos como "não vou passar no concurso porque ele é muito difícil" ou "existem muitas pessoas melhores do que eu". Dessa forma, a pessoa fica em sofrimento e não consegue atingir um patamar de estudo satisfatório. Mas, ao perceber que passar ou não faz parte da rotina natural dos concursos, ela logo vai perceber que o sucesso é decorrente do próprio esforço e comprometimento pessoal, e não de circunstâncias externas e fatores alheios à vontade, tais como "talento" ou uma prova fácil.

O aspecto emocional tem mesmo peso fundamental no sucesso ou fracasso?
Esses aspectos passam pela falta de concentração, medo da decisão, medo de errar e principalmente pelo fator tempo, pois muitos candidatos acham que podem estar perdendo tempo na preparação e ficam tentando achar uma fórmula mágica para passar. Outro fator marcante na preparação de um candidato é que ele faz este esforço durante um período sem ter a menor garantia de aprovação. Esse candidato que se dedica exclusivamente aos estudos, e não tem a contrapartida financeira, se abala emocionalmente, pois seus pensamentos ficam totalmente voltados para a falta do ganhos e acabam perdendo o foco nos estudos. Estes fatores comportamentais geram ansiedades e angústias. E prejuízo na preparação.

Um comportamento humano contraditório, e mais comum do que se imagina, é a autossabotagem. O medo do sucesso, por vezes, pode impedir o êxito dos concurseiros?
Conquistar da aprovação é, com certeza, uma realização, pois com ela vem o sucesso. Porém, muitas pessoas não sabem conquistar o sucesso e nem mantê-lo. No caso específico de um longo período de estudos, que requer disciplina e persistência, e onde também se busca a valorização pessoal, podemos observar vários candidatos lutando na busca do sucesso. Mas, sem ter realmente objetivos claros, eles não conseguem desenvolver uma boa programação em seus estudos. Isso pode acontecer como o efeito de uma bola de neve que começa por um pensamento pequeno, mas com o passar do tempo se transforma em algo quase incontrolável. Aqui podemos encontrar o boicote.

Quais os tipos de boicote mais comuns?
Neste ato de criar empecilhos a seus próprios interesses, os concurseiros acabam se boicotando nos estudos e nas diversas situações que envolvem toda a preparação. Um dos meios mais comuns de boicote é o de sempre encontrar "coisas" mais importantes para fazer do que estudar. Os estímulos externos acabam, com freqüência, tomando grande proporção em relação aos estudos. Sabe-se que para estudar é importante estar concentrado nessa tarefa, pois qualquer barulho, intenso ou não, pode desviar a atenção. Ao conversar com concursandos, é comum escutar que, quando eles sentam para estudar, acabam levantando para ver um pouquinho de televisão, ouvir música, ver a movimentação da rua, lavar roupas, limpar a casa e outras atividades que, naquele momento, parecem mais relevantes. Aqui está o boicote aparecendo bem claro e consistente. Dessa forma, o estudo acaba transformando-se em algo difícil e complicado. É preciso estar atento, para que se consigam identificar e superar esses entraves. Esta é uma tarefa que algumas vezes pode ser árdua, pois ao estar comprometido com o concurso, tais atentados podem não ser percebidos. Percebendo que tem alguma coisa errada com seu estudo, que não está "rendendo", o candidato deve procurar a ajuda de algum amigo, familiar ou de um especialista na área emocional para identificar e solucionar esse problema e retomar um ritmo satisfatório de preparação.

Quais espécies de pacto o concurseiro deve firmar consigo mesmo, de modo a não sair ferido, por exemplo, de algumas reprovações sucessivas?
Existem fases de estudo, assim como fases na vida das pessoas. Há momentos em que o estudante está em plenas condições de realizar qualquer concurso e fases nas quais fazer um concurso poderá gerar frustração. No caso de haver tido alguma experiência negativa, é importante se perguntar: "Algum dia passou pelos meus pensamentos realizar aquele determinado concurso?", "Quais eram minhas crenças em relação à seleção?", "Não havia muita pressão externa ou interna, pensamentos mágicos, entre outros fatores que interferiram no meu desempenho?". Ao responder a tais perguntas e perceber que algumas delas ou até mesmo todas tiveram resposta afirmativa, deve-se observar que daí em diante é preciso estar atento para fazer uma boa avaliação de qual concurso irá realizará - para não somar frustrações, e sim tirar bom proveito desses momentos de avaliação. A partir de uma derrota, é possível que ocorra uma hipergeneralização, ou seja, o estudante pode prejudicar diretamente suas próximas atuações nas provas, tendo como base a experiência que gerou essa frustração. Por isso, não é indicado fazer todos os concursos, para não somar sentimentos negativos.

Então, o senhor é contrário à prática tão comum de se fazer concursos só por experiência? Esse não seria uma caminho, por exemplo, para adquirir confiança?
Não, os concursos devem ser muito bem avaliados pelos candidatos, pois participar de todos pode gerar mais frustrações e não significar experiência. Mesmo que a prova seja feita sem grandes pretensões de aprovação, acaba gerando uma expectativa e atrapalhando a caminhada de estudos. Então, procure fazer concursos que estão próximos aos seus objetivos, pois com certeza você estará caminhando na direção certa, em busca da conquista - e não atrapalhando todo o processo.

Qual o principal erro que a maior parte dos candidatos comete durante a preparação?
Um dos maiores erros que os concurseiros cometem é a falta de objetivos claros. Sem um norte para guiar-se, pode-se remar indefinidamente sem saber aonde se quer chegar. Daí, a frustração de não chegar a lugar algum. Para alguém que está se preparando para concursos, cabe sempre fazer-se esta pergunta: "É realmente isto que desejo?" e "Aonde quero chegar realmente?". Esta definição é importante para ajudar a traçar uma trajetória, planejar um estudo eficiente e obter ainda mais estímulo para a continuidade da preparação. Além disso, muitas vezes o candidato faz do concurso sua vida. E, como sempre digo, concurso não é a vida de ningué, e sim faz parte dela. Outro ponto é o envolvimento da família. Quando não há apoio familiar - o que muitas vezes ocorre de uma forma não declarada -, o candidato acaba tendo prejuízo. Por exemplo, existem famílias que dizem que apóiam, mas na hora de estudar ficam cobrando resultados. Isto atrapalha o candidato. Outro grande desafio é a cobrança interna de “ter” que passar.

O que é a psicoterapia cognitiva comportamental de que o senhor tanto fala? Qual seu poder de transformação, na prática?
Essa abordagem é a que obtêm os melhores resultados na preparação para concurseiros, pois tem como foco o nosso pensamento, ou seja, a nossa cognição, a capacidade de aprendizado. Para entender melhor a TCC, é fundamental conhecer três princípios básicos: o pensamento afeta o humor e o comportamento, o pensamento pode ser monitorado e alterado e, por último, as mudanças no humor e no comportamento podem ser feitas por meio de alterações no pensamento. A partir desses princípios, observamos que nossas emoções indesejáveis e atitudes não-adaptadas à realidade são produtos de um pensamento disfuncional, ou seja, quando sentimos ansiedade e nos comportamos de modo a evitar situações estamos exercendo uma forma errônea de pensar. Digo: “o que perturba o ser humano não são os fatos, mas a interpretação que ele faz dos fatos”.

A baixa autoestima é um concorrente a ser derrotado?
Ela pode colocar tudo a perder. A autoestima é a base para que possamos viver melhor, e pode ser trabalhada através de processos terapêuticos, controle dos pensamentos, para não permitir que as desqualificações tenham um peso maior do que as qualificações. Uma forma bem concreta de se trabalhar melhor a autoestima é sempre verificar os dados de realidade que temos a nossa volta. Por exemplo, se um candidato se desqualifica, é preciso buscar os dados de realidade como: quantas notas ruins ele já tirou, quantas vezes foi repreendido por seu professor? Na medida em que responder essas questões, ele terá grandes chances de perceber que está efetuando uma distorção de seus pensamentos, exagerando em sua avaliação negativa sobre si mesmo. Poderá, então, modificá-los para que sua autoestima não seja abalada - e sim solidificada.

A depressão é comum entre candidatos que tentam a aprovação já há alguns anos, e não conseguem atingi-la? Ela pode ser paralisante?
A derrota vai sempre gerar uma tristeza, isso é normal. Em primeiro lugar o concurseiro se deve dar o direito de senti-la, pois se ficar evitando essa experiência, será mais difícil superá-la. Depois de passar por esse momento de depressão, procure fazer uma avaliação de como foi sua trajetória de estudos para poder planejar a continuidade deles, pois a caminhada precisa seguir em frente, até atingir a aprovação.

É usual, também no ambiente de concursos, o estabelecimento de comunidades de concurseiros nas redes de relacionamento. Lidar com as próprias frustrações, num ambiente como o Facebook, onde todos vivem basicamente de festejar 'vitórias', é um desafio a mais do nosso tempo?
A troca de informações e de experiências entre os concurseiros pode ser muito valiosa, se bem utilizada. O uso de redes sociais, fóruns de debates e comunidades com objetivos afins pode ajudar o candidato a manter-se atualizado, encontrar identificação e trocar experiências com aqueles que estão mergulhados num processo similar ao seu. No entanto, é preciso saber dosar estas informações, em relação ao tempo despendido no seu acesso, assim como na troca com outros concurseiros. Ao fazer estas trocas, é importante que o estudante lembre que muitas vezes as pessoas tendem a valorizar demais as suas vitórias e conquistas, e diminuir as dos outros. Além disso, aquilo que é divulgado nas redes nem sempre corresponde à realidade, ou esconde detalhes nem tão gloriosos assim... Comparar-se, dessa forma, pode comprometer o ânimo, a determinação e a confiança do concurseiro em si mesmo. É importante ter em mente que cada um tem a sua história.

Fonte: Folha Dirigida

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